Ivaldo Lemos Junior
Procurador de justiça do MPDFT
É muito conhecida a frase “o rei está nu”. Mas nem sempre é lembrado seu contexto, narrado no conto de Hans C. Andersen. Vamos recapitular: era uma vez um reino cujo rei era ruim, pois não se preocupava em oferecer o seu melhor para o povo, em termos de serviços valiosos e exemplos admiráveis. Não tinha dentro de si o espírito de disciplina, aprimoramento e dedicação, e sim de vaidade e futilidade: o que ele apreciava era roupa. Estava sempre se trocando, sempre ostentando indumentos novos (no fim das contas, a questão é definir se o povo tem um rei ou se o rei tem um povo).
Um dia, forasteiros desonestos se apresentaram no palácio prometendo produzir roupas esplêndidas. E um detalhe: invisíveis para tolos e incapazes. O rei acolheu a ocasião dupla: encomendar mais um feitio e, ao mesmo tempo, discernir a qualidade das pessoas. Os “alfaiates” receberam adiantamentos vultosos, seda pura, fios de ouro, e passaram a tear trajes imperceptíveis – ou melhor, inexistentes.
O rei quis inspecionar o trabalho mas temeu passar vergonha se não visse a roupa. Mandou um cortesão, que nada viu, mas fingiu que o fez e se esparramou em elogios. Outro auxiliar foi enviado e aconteceu o mesmo. Na prova final, o monarca tirou as peças que usava, pôs a roupa inexistente e saiu em desfile; camaristas carregaram o manto não menos imaginário. Os populares se maravilharam. Mas um menino, no meio da multidão, avisou o que todos enxergavam: que o rei estava era despido. Os outros começaram a cochichar e depois gritar a realidade nua (em português, “real” vem tanto de “rex”, rei, quanto de “res”, coisa). Sua Majestade, que também o sabia, prosseguiu com a cabeça erguida, imperturbável.
Moral da história: combinem pilantras, um poderoso pedante, bajuladores sôfregos e um poviléu parvo – e tudo ruirá na espontaneidade inocente e óbvia de uma criança.
Jornal de Brasília - 2/4/2025
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